Prefácio:

No Renascimento de uma Nova Era

No Tratado curto sobre “Deus, o homem e a saúde da sua alma”, Bento Espinosa (século XVII), afirmou, sem rodeios, que “conhecer é uma pura paixão, uma percepção na alma da essência e da existência das coisas” (Parte 2, Capítulo XVI, in Oeuvres I, Garnier-Flamarion, 1964). Um pouco mais à frente, ainda no mesmo capítulo, defendeu que “a Vontade pode bem existir sem o Desejo, mas jamais o Desejo sem a Vontade que deve tê-la precedido”. Uma tal tese ilumina a discussão actual sobre a arquitectura interna dos agentes (como passar da potência ao acto) e põe em causa o modelo BDI (Crenças-Desejos-Intenções), vigente desde a segunda metade da década de 80. Permite também centrar a nossa compreensão sobre o verdadeiro significado da autonomia dos agentes, assim como responder à pergunta “Donde vêm as motivações de um agente artificial?” No tempo de Aristóteles cabia aos físicos tratar da actividade ou da passividade de um corpo, deixando que a alma tratasse da intelecção. Isto não queria dizer que as alterações da alma não fossem inseparáveis da matéria física, pois Aristóteles estava convencido que a alma movia o corpo, e estava com ele entrelaçado.

Embora estas ideias fossem geradas por raciocínio dedutivo, e no caso de Espinosa por pensamento geométrico, inspirado em Descartes, a sua modernidade ainda hoje nos espanta e nos obriga a reflectir precisamente quando o termo agente domina a Inteligência Artificial (IA) e invadiu a própria Informática. Não é por acaso que as diversas escolas da IA, a clássica (simbólica), a conexionista, a evolucionária e a robótica, embora se debruçando sobre os agentes não se preocupam com a sua verdadeira substância. Deste modo, actuam de forma reducionista, simplificando a seu belo prazer o que é complexo demais. Não o fazem porém por razões tácticas, argumentando que um tal propósito apenas ajudará a ver o que é essencial, mas sim por razões estratégicas e com o objectivo de fazerem vingar a sua dama (escola). Em geral, e perante o complexo, não assumem, como deviam, uma perspectiva holística, global, aceitando com humildade que cada uma das escolas apenas contempla uma parcela (perspectiva) sobre os fenómenos da inteligência, e que essas parcelas são complementares e mantêm relações e interacções entre si. É curioso sublinhar que a escola evolucionária traduz, hoje em dia, uma certa modernidade no pensar o complexo, e a sua popularidade enraíza-se na facilidade como sabe enfrentar o todo. Mas não consegue depois descer ao local (detalhes) para caracterizar fenómenos como a alma dos agentes artificiais ou o jogo dos indivíduos numa multitude. E, as agências ganham relevância, sobretudo, quando cada um dos agentes possui o poder suficiente para assumir a sua própria singularidade.

O olhar para a IA com uma perspectiva de agentes, no que respeita a concepção de livros pedagógicos, foi assumida em 1995 por Stuart Russell e Peter Norvig, na 1ª edição de “Artificial Intelligence, A Modern Approach”, e quase em simultâneo no meu livro “A IA em 25 Lições”, e mais tarde, em 1998, por Nils Nilsson no “Artificial Intelligence, A New Synthesis”. No livro mais recente, a escola clássica apareceu como dominante, embora não na forma imperial de outrora. Nilsson fez surgir, pela primeira vez, na exposição didáctica da IA a ideia de evolução das máquinas inteligentes, com particular acerto, pois foi salvaguardado, elegantemente, o que cada escola foi juntando à nossa compreensão da inteligência. Uma tal postura não foi surpreendente, se conhecermos a carreira de Nilsson como investigador e professor da Universidade de Stanford (EUA) e o seu envolvimento com as redes neuronais em 1961, com as técnicas de procura e a resolução de problemas (o algoritmo A* foi uma das suas criações), e isto muito antes de ter abraçado o partido da Lógica. E, por isso, Nilsson pode afirmar, em 29 de Outubro de 2003, “existirão sempre algumas diferenças entre computadores e seres humanos, mas penso que as diferenças intelectuais e criativas irão reduzir-se”.

A visão centralizadora sobre o papel da Automação, e depois sobre o da própria Informática, determinou, no início da IA, a concepção do agente só e isolado, dependente do seu interlocutor humano. A IA só se abriu, e fugiu da Lógica, quando começou o movimento da descentralização da computação, ainda nos fins dos anos 70. A consagração da distribuição, ao longo de toda a década de 80, abriu o diálogo com as Ciências Sociais, e apoiou mais tarde o regresso das Neurociências à trama multidisciplinar da sua base de apoio. A hierarquização do poder, outrora em voga, foi substituída por outras formas de organização e conflito, cabendo às multitudes a réstia de esperança na defesa de experiências plurais. Mas a ascensão de intelectos singulares com livre arbítrio, o direito à resistência das comunidades locais de agentes face ao poder central, não passa apenas pela apropriação e exploração do conhecimento e da linguagem, pois sem autonomia, sem vontade própria, as agências são agrupamentos sem importância, perdidos nos labirintos das sociedades mercantis. Em vez dos comportamentos isolados de outrora, surgiram comportamentos colectivos em equipa, através da coordenação e da cooperação entre agentes em situações de grande complexidade, como em grandes desastres ou cataclismos (simulação com a bancada RoboRescue) ou em jogos de futebol (via robôs físicos e sintéticos, estes sobre a bancada RoboSoccer). O regresso da IA aos jogos de computador, em 1999, poderá parecer paradoxal se nos esquecermos da evolução permanente do poder de cálculo e da capacidade de armazenamento face o seu custo, mas a diferença entre os jogos brinquedo (de 1 ou 2 jogadores) e os jogos interactivos é abismal, pois o salto para os papeis e os comportamentos avançados, face às acções, é uma exigência dos consumidores. Contudo, a direcção apontada em 1960 por Arthur Samuel continua pertinente: “Programar computadores para jogar é apenas um passo no desenvolvimento da compreensão dos métodos que podem ser empregues na simulação mecânica do comportamento intelectual”.

Durante muitos anos, a IA não considerou a vida no quadro do ataque à inteligência, e o papel das Ciências Biológicas foi mesmo desvalorizado face às Ciências Cognitivas. Do mesmo modo, a complexidade foi colocada de lado, tendo o mote cartesiano “para vencer um problema difícil, reduza-o a subproblemas tratáveis” sido seguido com veneração. A crise da IA no meio da década de 80 veio provocar um movimento de retrocesso até às trincheiras das fundações teóricas, e foi daí que se conduziram as novas incursões e as batalhas em prol de uma renovação dos métodos e das técnicas. Concluiu-se imediatamente que a primeira idade do ouro ocorrera de forma prematura, sem preparação e formação adequada e com tecnologias datadas de uma década atrás. À ingenuidade de muitos dos seus investigadores somou-se uma exagerada arrogância, alguma ignorância e a pretensão de que tudo na Informática podia ser resolvido com a IA. As falências sucederam-se e os dias negros prolongaram-se mais do que seria previsível. Mas os desaires foram bons conselheiros para as novas investidas, garantindo-se as condições para a entrada segura na segunda era da IA. Os êxitos do Deep Blue II sobre Gary Kasparov (1997), da Blondie24, a adopção pela NASA das técnicas de planeamento (algoritmos poderosos para calcular ou planear em relação ao futuro em função do presente) e de novos robôs móveis e autónomos nos seus planos de exploração espacial, o poder de várias técnicas de raciocínio automático (e, entre elas, as do raciocínio probabilístico para enfrentar a incerteza e a incompletude), a exploração de técnicas variadas de procura para as máquinas de busca da Internet (e, a preparação de uma segunda geração mais potente do que o Google), o desenvolvimento de superinteligências (ultrapassagem dos limites das capacidades cognitivas humanas) no computador BINA48, a obtenção do prémio Loebner 2003 pelo chatbot Jabberwock, a influência de outros bots como o EZ-Gimpy ou o CAPTCHA na regulação e segurança da Internet, o uso do programa Massive para as cenas de batalha da segunda parte do filme O Senhor dos Aneis, o pintor artificial de quadros Aaron com capacidade criativa, o programas de composição musical SARA de David Cope capaz de imitar Bach, Chopin, Prokofiev, Mozart e Scott Joplin, ou ainda a adopção da tecnologia dos agentes pelas indústrias do cinema e dos jogos de computador, são apenas alguns exemplos vitoriosos da IA actual.

Se olharmos, apenas a título de exemplo, para o ataque aos problemas mais complexos das organizações (distribuição, produção) veremos como a área da modelação e da simulação foi buscar a terminologia dos sistemas multiagente, e algumas das suas ferramentas mais conseguidas, e como a engenharia da programação recuperou algumas ideias inovadoras das metodologias da engenharia baseada em agentes, sem que tudo isto tivesse sido creditado à IA. Uma tal escolha não nos surpreende quando a sociedade do consumo ou a do espectáculo se regem por critérios economicistas e pelas leis do mercado, com total desprezo pela pessoa humana. A ausência de critérios éticos, o apagamento das pessoas de carácter, o vale tudo sim senhor que se apregoa aos quatro ventos, a hipocrisia e a mentira dos sem vergonha, são apenas indícios certos de que uma nova era está para surgir em breve.

No fim de 2003 estamos num contexto bem diferente do que vivemos na última década, embora nenhum livro recente de IA tivesse aparecido (a segunda edição do livro de Russell e Norvig (2003) apenas actualizou aspectos menores). Não foram só os êxitos da IA que convenceram as grandes empresas a empenharem-se a fundo na IA e a lançarem novas iniciativas, como as da IBM em torno da computação autonómica ou do raciocínio de bom senso. Os sectores de transportes, das comunicações, da produção fabril, da distribuição, do comércio a retalho, da banca ou dos seguros constituem hoje em dia campos seguros das aplicações da IA, no âmbito da exploração alargada das tecnologias da informação e das comunicações. O disfarce da IA ocorre nos aviões, comboios, automóveis (fórmula um), teatros, estúdios de gravação, nos produtos da Microsoft, e mesmo nas infraestruturas computacionais da IBM, SUN, Oracle e HP. Regista-se, com agrado, o papel dominante na Europa da empresa portuguesa de IA, a Siscog, no planeamento e gestão dos transportes ferroviários.

O presente livro aproveita assim a oportunidade ao entrar na onda dos recentes sucessos da IA, contribuindo de modo original com uma obra bem estruturada, escorreita, e alicerçada em quase 20 anos de docência e investigação do professor Ernesto Costa e, mais recentemente, no trabalho de formação e investigação da mestre Anabela Simões. Essa experiência pedagógica continuada, em vários teatros de operação, é capitalizada na segurança como se discutem os temas clássicos da IA e como se exprimem as novas abordagens provenientes da escola evolucionária, ao longo das principais áreas de envolvimento teórico. A exaltação pela vida empolga o leitor, mesmo o desprevenido, que o segue com atenção, mas os autores não se distraem, nem se comovem, e com maestria caminham do simples para o complicado, com a metáfora do agente em mente. Há também aqui um processo evolutivo da máquina inteligente, visível já no livro de Nilsson, mas em contrapartida agora aproveita-se para tornar claro que cada dificuldade não tem uma única solução. Esta é sem dúvida a mais valia dos autores, colocar em concorrência as três escolas principais da IA, e deixar ao leitor que conclua qual delas é a melhor. Eu por mim não tenho dúvidas em afirmar que esta aposta é inovadora e ganhadora, porque os desafios futuros dos agentes artificiais serão ganhos se eles conseguirem lidar, cada vez melhor, com o ambiente que os envolve, não sozinhos, mas em cooperação com outras agências e com os seres humanos seus amigos. Os dilemas absurdos sobre o artificial, maravilhosamente tratados no filme A. I. de Steven Spielberg, e na história do robô David, já capaz de ter emoções, mas ainda sem poder crescer e morrer, lembram-nos que temos mais dificuldade, nos dias de hoje, em conviver com a modernidade do que nos libertarmos do acessório mediático para darmos livre curso à nossa capacidade de pensar. E, por isso, a Filosofia é o campo que devemos defender, cuidar com carinho para preservarmos e defendermos a essência das coisas, e para continuarmos o projecto da IA. E, como disse há uns anos um dos seus fundadores, John McCarthy, nem que para isso sejam necessários 5 ou 500 anos.

Lisboa, 1 de Janeiro de 2004 Helder Coelho